quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quais interesses estiveram por trás do impeachment de Fernando Lugo?

Enquanto assistia ao Jornal Nacional, no fim de semana passado, fiquei muito intrigado com as notícias sobre o impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo. Vendo que vários outros telejornais e programas de rádio passaram a tratar do assunto, classificando o ocorrido como um golpe de Estado, fiz uma pesquisa na internet, na qual consultei sites de revistas e jornais dos mais diversos matizes ideológicos, na tentativa de entender o fenômeno em questão. Foi a partir de tal pesquisa que escrevi o texto que agora publico para os distintos leitores.

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No último fim de semana, enquanto os olhos de boa parte do mundo estavam voltados para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o parlamento do Paraguai depôs, em tempo recorde, o presidente eleito Fernando Lugo. Na quinta-feira, 21 de junho, a Câmara dos Deputados daquele país aprovou, com 73 votos favoráveis e um contrário, o impeachment do então presidente da república. Já na sexta-feira, 22 de junho, foi a vez do Senado paraguaio ratificar o impedimento do mandado de Lugo, com 39 votos favoráveis, quatro contrários e duas ausências. Todo o processo ocorreu em aproximadamente 36 horas, sendo que a defesa de Fernando Lugo teve apenas duas horas para se manifestar. Vale ressaltar que a Constituição do Paraguai prevê um prazo de 18 dias para para a defesa de um presidente em vias de impedimento. Apesar disso, deputados e senadores ainda afirmam que agiram legalmente.

Em meio ao ocorrido, com as bênçãos da presidente brasileira Dilma Rousseff, uma delegação de embaixadores latino-americanos, liderada pelo brasileiro Antônio Patriota, dirigiu-se ao Paraguai, ainda na sexta-feira, visando pressionar os senadores a não destituírem Fernando Lugo. A própria presidente Dilma defendeu a expulsão do país vizinho do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e da União das Nações Sul-americanas (UNASUL). Já na noite de domingo, 24 de junho, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina anunciou a suspensão do Paraguai do MERCOSUL.

Mas o que motivou a deposição sumária de Lugo? Segundo os parlamentares paraguaios, o presidente apresentava um fraco desempenho, o que teria culminado no confronto entre policiais e trabalhadores rurais sem terra, no dia 15 de junho, na cidade de Curuguaty, região de Ñacunday, próximo à divisa com o Brasil. Nesse confronto, morreram 11 agricultores e seis policiais, dentre eles comissário Erven Lovera, irmão do tenente-coronel Alcides Lovera, chefe de segurança do presidente deposto. Além disso, figuram entre as acusações contra Lugo o financiamento de uma manifestação realizada no Comando das Forças Armadas, no ano de 2009, a participação de militares em ações de trabalhadores sem terra, neste ano, e a fraqueza das medidas do governo contra os membros do Exército do Povo Paraguaio, guerrilha que atua no país. Essas, pelo menos eram as justificativas oficiais, que foram divulgadas por vários meios de comunicação do Brasil. Porém, pesquisando um pouco mais na internet, é possível observar outros fios que se entrelaçam para a formação de tal trama.

Fernando Lugo é bispo licenciado da Igreja Católica e adepto da Teologia da Libertação – doutrina que tem como característica principal a defesa dos menos favorecidos. Em sua trajetória política, ele buscou organizar os trabalhadores do campo na defesa de seus interesses. Lugo foi eleito presidente da república em 2008, tendo se candidatado por uma coalizão de diversos partidos de esquerda que visavam fazer frente ao conservador Partido Colorado, que estava no poder desde a ditadura de Alfredo Stroessner, que durou de 1954 a 1989. Um dos pontos de seu programa de governo era a realização de uma reforma agrária no Paraguai. Para isso, ele propunha a anulação de títulos de propriedades de terras emitidos no período da ditadura, o que seu governo chegou a fazer. Tal medida desagradou aos grandes proprietários de terras daquele país, dentre eles os chamados brasiguaios – latifundiários brasileiros e seus descendentes, que foram repelidos de suas antigas propriedades no Brasil, no período da construção da hidrelétrica de Itaipu, e atraídos ao Paraguai, devido aos baixos preços que eram cobrados pelas terras durante a ditadura. A fazenda Morombi, onde ocorreu o supracitado confronto entre policiais e agricultores, pertence ao empresário e político paraguaio Blas Riquelme, mas na região de Ñacunday existem várias propriedades de brasiguaios, cujas posses são questionadas pelos sem terra dali.

Não foi à toa que os brasiguaios apoiaram o impeachment de Fernando Lugo, além de terem pedido à presidente Dilma que reconhecesse o governo de Frederico Franco, vice de Lugo, que tomou posse já na noite de 22 de junho. Esses fazendeiros, junto com os latifundiários paraguaios, cujos representantes dominam o parlamento daquele país, já tramavam destituir Fernando Lugo desde 2009, de acordo com um documento divulgado pelo Wikileaks no ano passado. Os brasileiros, que foram responsáveis pela ruína do país vizinho, com a Guerra do Paraguai, mais uma vez contribuíram para a sua derrocada.

Os grandes proprietários de terras, sejam eles paraguaios ou brasiguaios, não estiveram sozinhos na articulação desse golpe disfarçado de julgamento político. A Monsanto, transnacional do ramo da biotecnologia com sede nos Estados Unidos, tentou vender para o Paraguai sementes de variantes transgênicas de algodão. Porém, o Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (SENAVE) do governo paraguaio não autorizou a distribuição comercial das sementes, devido à falta de um parecer da Secretaria do Ambiente e do Ministério da Saúde paraguaios. Diante disso, latifundiários e empresários do agronegócio iniciaram uma campanha midiática contra Fernando Lugo além de terem programado uma manifestação contra o ex-presidente, manifestação essa que ocorreria no dia 25 de junho.

Concluindo com a resposta à pergunta que fiz no título deste texto, os interesses da agroindústria é que estiveram por trás do impedimento de Fernando Lugo. Isso ocorreu porque o governo do mencionado presidente buscava a regularização da posse de terras e tencionava a realização de uma reforma agrária que beneficiaria a população camponesa do Paraguai, principalmente os trabalhadores sem terra. Mesmo travestido de democrático, o que ocorreu no fim de semana passado não passou de um golpe, cujas motivações foram as mesmas de tantos outros praticados na América Latina, como daquele que ocorreu no Brasil em 1964.


Referências

ALFREDO Stroessner. Wikipedia: La enciclopedia libre. S. l., S. d. Disponível em: <http://es.wikipedia.org/wiki/Alfredo_Stroessner>. Acesso em 26 jun. 2012.

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GRIMALDI, Idilio Méndez. Monsanto e os acontecimentos no Paraguai: os mortos de Curuguaty e o julgamento político de Lugo. Movimento dos Pequenos Agricultores, S. l., 25 jun. 2012. Acesso em: <http://www.mpabrasil.org.br/noticias/monsanto-e-os-acontecimentos-no-paraguai-os-mortos-de-curuguaty-e-o-julgamento-politico-de>. Acesso em: 26 jun. 2012.

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PARAGUAI: Senado arma golpe e destitui Fernando Lugo. Caros Amigos, São Paulo, 23 jun. 2012. Disponível em: <http://cms.carosamigos.terra.com.br/index/index.php/politica/2167-paraguai-senado-arma-golpe-e-destitui-fernando-lugo>. Acesso em: 23 jun. 2012.

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SENADO Paraguaio destitui Lugo e golpe relâmpago é consolidado. Carta Capital, São Paulo, 22 jun. 2012. Disponívem em: <http://www.cartacapital.com.br/internacional/senado-paraguaio-destitui-lugo-e-golpe-relampago-e-consolidado/>. Acesso em: 23 jun. 2012.

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